De hoje

Se te pareço ausente, não creias:hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,hora a hora meu desejo revolve teus escombros,e escorrem dos meus olhos mais promessas.Não acredites nesse breve sono;não dês valor maior ao meu silêncio;e se leres recados numa folha branca,Não creias também: é preciso encostarteus lábios nos meus lábios para ouvir. NemContinuar lendo “De hoje”

Pretérito

Pedi à cartomante Mudar meu passado Rasguei as cartas Tua caligrafia Insultei tuas neuroses Escondi minhas manias Gritei com a parede Chutei os sapatos Baguncei tudo Joguei fora os versos Tomei taças de gim Na vã tentativa De voltar atrás.

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.Em cofre não se guarda coisa alguma.Em cofre perde-se a coisa à vista.Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordadoContinuar lendo “Guardar”

Corpos bailantes

a melodia toca dentro e o corpo traz materialidade à composição transcende tempo e ritmo imprime intensidade aos movimentos por vezes, a dança é frenética subverte os gestos outras vezes, cadenciada como uma orquestra, adiciona, aos poucos, ao ritmo instrumentos e acordes, até chegar ao clímax extasiando, por fim, músicos e plateia.

Memória

Não me lembro da primeira vez que li Pessoa, mas não me esqueço do maravilhamento que senti quando conheci seus textos. Também não me esqueço da primeira vez que vi o Tejo, naveguei em suas águas e me senti nos escritos do poeta. Não me lembro de quando conheci Leminski, nem de quando comprei seuContinuar lendo “Memória”