Rota

quis encontrar uma estrela em teus olhos

dançar, inda menina, nos teus palcos

ser-te atriz principal de meus melhores papeis

enquanto rompia as correntes de um vazio sem nome

e buscava alguma crença em qualquer merecimento.

esqueci-me menina nas minhas fantasias inseguras

nos desejos que busquei atrás das portas

ou entre as frestas nas janelas

quis encontrar sentido em mistérios, contos e horóscopos

e deixei de cultivar a antiga mania de temer o que não conhecia.

que dor profunda em se crescer!

fui extirpar pedaços, carcaças, lágrimas secas

mergulhei fundo e toquei o lodo que esconde nossos pés quando afundamos

larguei as roupas velhas, úmidas, floridas

deixei os cadernos, as cartas, os adereços em cores

ao lado do jazigo onde enterrei minhas antigas versões acabadas

vez ou outra procuro estrelas, agora no céu, onde repouso meus olhos

enquanto algumas lembranças percorrem meus lutos

para eu me ter finalmente presente em mim mesma.

Obra de George Clausen, 1892.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

8 comentários em “Rota

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