Loucura

As coisas da mente são fascinantes, para o bem e para o mal. É maravilhosa a nossa capacidade de pensamento, aprendizado e, ao mesmo tempo, são assustadores os caminhos desviantes que qualquer espírito, em algum momento, pode tomar. Os transtornos mentais são como perguntas que podem ficar sem respostas sobre o nosso sentido de ser e estar no mundo.

A doença mental é apavorante. Por um lado, muitos de nós desconhecem suas causas e, portanto, não sabem se podem vir a sofrer daquele mal. Por outro lado, há sempre dúvidas – inconscientes ou não – sobre possibilidades de “contágio” daquele mal e sobre se, ao estar muito próximo de uma pessoa mentalmente transtornada, podemos adoecer também. Talvez, por estas razões meio estranhas, meio escondidas, meio enigmáticas as doenças da alma sejam as que mais desejamos negar.

Ainda hoje é comum ouvir pessoas dizerem que psicólogos, psiquiatras e psicanalistas são “coisas para malucos”. Em pleno século XXI. E essas “coisas para malucos” me fazem pensar: será que não somos todos um pouco doentes? será que não somos todos, em algum aspecto e frente a determinados desafios, capazes de atitudes estranhas?

Não estou negando a existência de transtornos mentais porque já os vi em pessoas próximas. Sei que o que vivenciei era doença mesmo, não problema de mau comportamento. Entendo, também, que nem todos fazemos loucuras (embora todos sejamos capazes). O que fica em minha mente é o quanto olhar para esses comportamentos nos desconcerta. Lembro que me assustava pensar em quão terrível é perder o controle da própria vida, em como é difícil ver a doença tomar conta da existência de alguém, sobressair à essência do que conhecíamos. Reconheço o quanto é doloroso deixar de enxergar as graças e extravagâncias de algumas atitudes e passar a ver tudo como enfermidade apenas.

Passar a acolher com certa compaixão os comportamentos humanos, os medos, as doenças, a sanidade, as virtudes e defeitos é tarefa árdua e importante. Sair da sombra do horror dos comportamentos estranhos é difícil e desafiador. Assim como é a própria vida, com tantos percalços e julgamentos alheios.

Talvez certa estivesse Lygia Fagundes Telles: solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.

Le désespéré, 1844, Gustave Coubert.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

9 comentários em “Loucura

  1. Eis algo muito delicado e complexo. Outro dia li textos sobre isso e confesso que fiquei em um labirinto sem saída. Nossa mente/alma são por certo muitas vezes indecifráveis até mesmo para a ciência. Ainda acredito que, enquanto ainda com a mente razoável em sanidade, a empatia é um caminho que pode ser trilhado e quem sabe capaz de amenizar o sofrimento. Muito o que pensar. Muito por fazer.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Excelente e necessária reflexão Ana. Certa vez, num velório de parente, conversava com alguns primos e discutiamos o fato de haver tantas pessoas com problemas mentais na família. Isso me levou a pensar e buscar a psicanálise pois trazia muitas questões que me deixavam infeliz comigo mesma. O conhecer-se é um passo fundamental para entender e aceitar o outro. Exigir perfeição dos outros quando nós mesmos somos um poço de imperfeição é o que gera tantas desavenças e mal viver. Tenho comigo que a falta de diálogos abertos no meio familiar e social, também colabora e muito para tantas doenças e transtornos mentais. Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: