Carta

Minha irmã, há quanto tempo não nos vemos! Esta pandemia atrapalhou tudo, os planos, as idas e vindas, os encontros. Já faz meses que não nos encontramos, muito mais do que o período que normalmente passamos afastadas. Isso sem falar do último ano, quando o convívio foi praticamente inexistente.

A falta que os encontros afetivos nos fazem repercute no nosso espírito. Ficamos um pouco mais angustiados e carentes. Há também o medo, enorme em relação a todo este desconhecido.

Estamos mais em casa. Isso tem um lado bom, de voltarmos para dentro, para o que importa. Voltei-me para dentro também em outros sentidos: nos muitos livros que tenho lido, nos filmes que assisto nas tardes de sábado junto às crianças e no tempo maior para o jardim, os cachorros, as estrelas. O vinho está acabando, é verdade. Não, não estamos alcoólatras, apenas podemos desfrutar mais vezes de uma taça ao jantar. Assim como os restaurantes têm me visto menos, a cozinha aqui de casa ficou mais criativa. Há espaço, tempo e apetite para novos pratos, algumas experimentações e bolos aos finais de semana. Sim, você sabe como gosto de café com bolo nas tardes. Isso não mudou.

O que espero que mude é essa distância toda. Desejo que muito em breve possamos nos reunir para partilhar a vida. Às vezes bate um pouco de inquietude e desespero, mas não é possível seguir assim sem adoecer. Então é melhor cuidarmos de nossas fragilidades. As plantas têm me ensinado um pouco sobre o curso das coisas. Não desistiram de florescer em meio a tanto caos.

Imagem: arquivo pessoal.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

9 comentários em “Carta

  1. Ana,
    Identifiquei-me muito com o texto.
    Como aprendemos a viver mais em casa, cozinhar mais e assim comer muito melhor e ainda conviver mais com a família.
    Ficou realmente a lacuna do convívio com os amigos, os abraços e beijos e as conversas olho no olho.
    Se Deus quiser estamos caminhando para o fim da pandemia, quando então poderemos dar uma baixa no estoque de gestos de afetos armazenados há tanto tempo.
    Obrigado por compartilhar seus sentimentos!
    Abraços.

    Curtido por 1 pessoa

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