Distimia

Um diagnóstico nunca é uma solução; talvez a explicação para eventos da vida que atrapalham e incomodam a si e aos outros. Um tapa na cara ao perceber que a culpa pelas falhas cometidas nas relações com os outros é quase exclusivamente sua. Mas, também, a possibilidade de começar a buscar mudanças.

Também conhecida como doença do humor, neurose depressiva ou neurose de angústia, a distimia (CID 10 F34.1) é um transtorno psíquico (transtorno dos afetos) semelhante à depressão, porém com um quadro crônico. Não é considerado como transtorno de personalidade, mas sim como da ordem da relações afetivas. O transtorno é melhor considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura, vivenciada como parte do self habitual e representando uma intensificação dos traços observados no temperamento depressivo. Ela se manifesta por meio de mudanças radicais nos sentimentos, especialmente quando está presente um grande prazer ou um grande ganho. É uma espécie de sabotagem ao bom sentimento, uma auto-punição inconsciente, porém intencional.

A distimia é uma forma de depressão crônica, não-episódica, de sintomatologia menos intensa do que as chamadas depressões maiores. O padrão básico desses pacientes é um baixo grau de sintomas, os quais aparecem insidiosamente, na maioria dos casos antes dos 25 anos. Apesar dos sintomas mais brandos, a cronicidade e a ausência do reconhecimento da doença fazem com que o prejuízo à qualidade de vida dos pacientes seja considerado maior do que nos demais tipos de depressão.

Os pacientes com transtorno distímico freqüentemente são sarcásticos, niilistas, rabugentos, exigentes e queixosos. Eles podem ser tensos, rígidos e resistentes às intervenções terapêuticas, embora compareçam regularmente às consultas. Apesar de o transtorno cursar com um funcionamento social relativamente estável, essa estabilidade é relativa, visto que muitos desses pacientes investem a energia que têm no trabalho, nada sobrando para o prazer e para as atividades familiares e sociais, o que acarreta atrito conjugal característico.

Além do humor triste de forma prolongada, pode haver mudanças de apetite, insônia, baixa auto-estima com pensamentos de não ter valor ou não ser bom o bastante. Podem ser generosos quando têm pouco (bens, dinheiro) e temerosos quanto a perdas quando têm muito. Há também, muito frequentemente e com grave intensidade, um sentimento de auto-piedade que faz com que os distímicos se tornem ingênuos e com pouco juízo crítico quanto a decisões de suas vidas, podendo facilmente ser manipulados.

Entretanto, o sentimento mais constante dos distímicos, é o medo de suportar o prazer, ou seja, ou medo de ter prazer e poder perdê-lo, o que faz com que esses indivíduos entrem em uma espiral de auto-sabotagem, na medida em que tentam ter controle sobre possíveis perdas de suas vidas, antecipando-as. É portanto uma doença que versa sobre ansiedade, medo, ilusão de controle e auto-punição, acarretando perdas afetivas e sociais, dadas as confusões amorosas em que se envolvem.

A distimia, em geral, requer tratamento medicamentoso associado à psicoterapia específica. Apoio familiar e conhecimento a respeito da doença são também fundamentais. Um diagnóstico preciso é sempre o caminho para a transformação. Nas doenças e na vida, vale sempre a recomendação de Caetano: é preciso estar atento e forte.

Golden tears, Gustav Klimt.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

2 comentários em “Distimia

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