Inventário de medos

Tenho medo de emergir em mim mesma

De não achar o fio da trama dos sentimentos absurdos

Tenho medo de encontrar os fios

E descobrir enredos internos obtusos.

Tenho medo de acreditar na sorte

De confiar em caminhos cheios de sonhos

Tenho medo da falta de sorte

Do inesperado, do desespero, da ausência de controle.

Tenho medo da falta de amor

Dos outros descobrindo o mar de defeitos em que me derramo

Tenho medo do amor mesmo

E do desespero que nos toma não nos sentirmos credores.

Tenho medo da morte

De descobrir na derradeira hora que o fim é pó e nada mais

Tenho certo medo da vida

Das retas serem sempre curvas e as curvas, sempre tortuosas.

Tenho medo de escrever

E, escrevendo, afundar-me em meus redemoinhos de dores

Tenho medo de deixar de escrever

Porque se calaram as vozes, apagaram-se as ideias, murcharam os amores.

Tenho medo de altura e já tive medo de elevadores

Tenho medo de rios e de sujeitos beligerantes

Tenho medo do próprio medo, da vista escura, da respiração ofegante

Tenho medo de perder o medo, perdendo-me, por fim, naquele instante.

Desenho de Virginia Mori.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

8 comentários em “Inventário de medos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: