O fim, enfim

A noite havia sido de merecido descanso. O dia amanheceu leve, claro e belo. O sol anunciava calor pelo correr das horas e os vizinhos iniciavam animadas conversas nos arredores.

Mesmo assim, ele acordou com uma horrível expressão no rosto. Mal humorado e sombrio, começou a desfiar um rosário de reclamações. Cheio de argumentos, encontrou em cada frase razões para falar de si mesmo e de suas vontades.

Discutiu com ela sem descanso a manhã toda. Repetiu silogismos trocando expressões e palavras. Refez incansavelmente as mesmas indagações e dúvidas. Exaltou-se por vezes, proferiu ameaças e fabulou por horas.

Cansada, quase exaurida em seu desejo de se colocar frente a tudo aquilo, ela viu, pouco a pouco as palavras tomarem todo o espaço da sala, carregadas que estavam com o peso dos sentimentos narcísicos debulhados na sua frente. Seu hálito – o dele – foi ganhando odor cada vez mais ocre, quase soturno. Suas expressões foram colapsando sua face em uma desarmonia sem volta. Seu corpo foi se curvando e retorcendo e sua estatura, diminuindo. Tornou-se um Quasímodo perverso, quase reptiliano.

Arrumou e jogou, já sem paciência, a mala daquele homem para fora, esquecendo-se da gentileza que tem por característica. Pediu para que fosse, quase como uma ordem. Os minutos que se seguiram em uma vã tentativa de ficar com ela e desfazer o malfeito pareceram mais que um século. Por fim, ele pegou suas coisas e desapareceu no hall.

Ela fechou a porta atrás de si com um sentimento de peso do qual se livra. Sentiu-se leve, livre e tola pelo tempo passado com ele. Estava cansada dos jogos que ele fazia, testando a todo momento a crença que ela tinha nele. Estava desacreditada de suas histórias, de seus arranjos sintáticos e verbais, eximindo-se da culpa de suas escolhas confusas e coroando-se de qualidades, ávido por aplausos. Estava, sobretudo, vazia de sentimentos, oprimida que estava pelo peso das últimas horas ou, talvez, dos últimos anos.

Trancou a porta. Ligou para o chaveiro. Mudaria as chaves, a casa, a vida para passar a viver de verdade, sem desvios, atalhos e palavras alheias, as suas verdades. Levaria anos ou, quiçá, o resto da vida para se livrar daquele cansaço.

Óleo sobre tela de Lena Rivo.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

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