Chuva

A chuva veio cedo, estranhamente em agosto. Quis umedecer o solo e preparar a terra para as sementes da primavera.

Veio como um prenúncio: lavar a alma, levar o que não cabe mais. Esfriar os afetos, as emoções extremadas. Umedecer a urdidura da nossa existência para que possamos descartar os fios que não permitem compor equilíbrio na trama.

Veio trazer cantos matinais longínquos e a insônia, apenas pelo desejo de rememorar os ruídos da água. Trouxe comedimento, ritmou a respiração, acomodou os barulhos internos. Calou a mente para aguçar os ouvidos. Esfriou o corpo. Entrelaçou a alma nos sonhos quase perdidos. Realinhou a fé.

Trouxe um fio de paz, não a mundial, apenas a minha, a que eu preciso para seguir completa. E vento, muito vento, para desgrenhar os cabelos, empoeirar os móveis e derrubar as folhas secas das árvores.

Rogo que ela possa ter realinhado os chakras, os astros, a coluna, as ideias e os ideais. Na dúvida e na esperança, sigo correndo os dedos a completar os ciclos de aves-marias, a me manter sempre em abrigo com o que de fato importa.

Escultura de Luo Li Rong.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

3 comentários em “Chuva

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