Diário

a insanidade momentânea é uma senhora obesa e displicente a nos dizer indecências com restos de comida por entre os dentes. espaçosa e repulsiva, não para de tagarelar enquanto mastiga. observo-a, tentando me incomodar cada dia menos com seu jeito intolerável. distancio-me observando pássaros, borboletas e estrelas. procuro constelações à noite e tenho momentos de flerte com vênus e com a lua. cuido de orquídeas, vasos de manjericão, hortelã e de um limoeiro que trouxe para frente de casa. assobio para as calopsitas e compro folhas de couve para elas no mercado. pedalo, faço pilates e tomo um pouco de sol. voltei a fazer dieta.

não quero tomar remédios. ando flertando com florais, aromaterapia, chás e resolvi usar o terço que ganhei como momento de meditação. cada conta, uma respiração a ser modulada, um ruído da mente a silenciar. o mantra da ave-maria incontestavelmente me fala do ciclo da vida, nascimento e morte, começo e fim. o do nosso pai me lembra da fé necessária para nos sustentar, do incontrolável à nossa volta, de nossos tão irrelevantes desejos, afinal não é a minha vontade que deve ser feita. a vida lá fora, sol, flores, pequenos animais, o céu, o vento de agosto seguem em seu louvor cotidiano a deus, vivendo apenas, sem pensamentos, sem preocupações, sem raiva e ansiedade. invejo-os. quero criar, ventar, voar, aquecer, florescer, transformar. quero ser eu mesma, sendo outra.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

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