Coisas de mulher

Toda mulher gosta de ir ao cabeleireiro. Fazer unhas, escova, depilação, mechas. Cortar as madeixas. Compromisso semanal consigo e com a atualização de dados sobre a vida alheia. Como resistir?

Resigno-me a achar que sou diferente da maioria. Odeio salões de beleza, fofocas sobre as frequentadoras, leituras de revistas Caras. Faço eu mesma minhas unhas com perfeição, sei me maquiar direitinho, meu cabelo dispensa escovas, alisamentos, chapinhas e afins. Um cortezinho a cada 3 meses. Uma ballayage para “iluminar os fios” no mesmo intervalo.

Ontem foi dia de voltar ao cabeleireiro. Refazer as mechas, conversar um pouco sobre a última vez em que estive lá e não gostei do resultado. Expliquei o que aconteceu, do que não gostei e do que gosto. Ele me ouviu atentamente, enquanto analisava meu cabelo. Depois falou:
– Vamos fazer algo diferente!
– Mas eu não gosto de nada diferente. Tradicional é meu sobrenome!
– Confie em mim, ficará ótimo, você vai ver. E o resultado será o que você deseja.

Confiei no dito cujo. Entendo um pouco de cuidados com corpo e cabelo, mas a minha profissão é outra. Deixar com quem sabe é sempre a melhor pedida. Sempre?

Depois de quase três horas sentada lendo Caras, Contigo e acompanhando alguns pedaços de dois filmes sonolentos que passavam na TV da sala de espera, eis o resultado: vontade de chorar, de matar o “sabidão” e de sair sem pagar. Ai, minha fina educação que me puxa as orelhas e me cala a boca quando sobe pelo corpo o desejo de um barraco digno de novela das oito (ou nove, ou onze, sei lá!). Conversei educadamente com o cabeleireiro, expliquei o que não gostei, ele explicou o que foi feito, retruquei sobre as nuances de cor, ele respondeu, me dando detalhes sobre o porquê do procedimento adotado e me garantiu que era isso que deveria ser feito. E que, na próxima vez, será possível fazer do meu jeito, agora não, por causa disso, daquilo, daquele outro e mais outro. Ok, entendido, aceito, conversado, pago, sorrisos de despedida, beijinhos e um inevitável: “Daqui a um mês tô aqui de novo para você consertar isso”. Essa merda, pensei! Mas não falei. Não sai mesmo. Nota dez para meus pais, pelo empenho na minha educação. Nem a Sorbonne faz tão bem feito. Vou fazer igual com meus filhos.

Cheguei em casa e não podia passar por um espelho que já estava eu olhando o resultado, tentando me convencer de que “não estava tão ruim assim” e de que “ele fez o que podia ser feito”. Acordei no meio da noite, de um sonho em que meu cabelo era cor de laranja e o cabeleireiro me dizia que estava MA.RA.VI.LHO.SO! Pulei da cama e fui beber água.

Hoje de manhã, assistindo ao Bom Dia Brasil, o técnico da seleção uruguaia de futebol deu uma declaração interessante. Disse ele: “Se você tem um problema que tem uma solução, por que se preocupa? E se ele não tem solução, por que se preocupa também?”. Ok, recado dado, tudo entendido. Meu problema TEM solução (espero!) e tenho que parar de pensar nisso.

Cheguei ao trabalho e todo mundo elogiou.
– Menina, seu cabelo está lindo!
– Você está muito chique!
– Que cabeleireiro é esse? Muito bom…

Resolvi me tranquilizar. Talvez eu tenha exagerado na dose e na reação. Vou ficar “na boa” e acreditar na crítica alheia – realmente ficou muito bom, só que diferente do que eu queria. No próximo mês eu volto lá e corrigimos qualquer defeito. Até lá vou ficar tranquila, esquecer esse assunto e parar de me olhar no espelho a cada 10 minutos. Vou aceitar e me acalmar. Não vou ficar pensando que o cabeleireiro poderia ter feito diferente, tentado outra coisa, arriscado outra cor, corrigido na hora em que falei que não gostei…

Que ódio!

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

6 comentários em “Coisas de mulher

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