Clarice

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir de modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.

Publicado por Ana Luisa Bittencourt

Não sou escritora, nem blogueira. Apenas escrevo, eventualmente, em verso ou prosa. Meus textos são todos autorais.

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