Gaia

Ó Deus, nós te damos graças por este universo, nosso lar: pela sua vastidão e riqueza, pela exuberância da vida que o enche e da qual somos parte.

Nós te louvamos pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bênçãos, pelas nuvens que navegam e pelas constelações lá no alto.

Nós te louvamos pelo oceano, pelas correntes frescas, pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo capim sob nossos pés.

Nós te louvamos por nossos sentidos: poder ver o esplendor da manhã, ouvir as canções dos namorados, sentir o hálito bom das flores da primavera. Dá-nos, rogamos-te, um coração aberto a toda essa alegria e a toda essa beleza, e livra nossas almas da cegueira que vem da preocupação com as coisas da vida e das sombras das paixões, a ponto de passar sem ver e sem ouvir até mesmo quando a sarça, ao lado do caminho, se incendeia com a glória de Deus.

Alarga em nós o senso de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs, a quem deste esta terra por lar juntamente conosco. Lembramo-nos, com vergonha, de que no passado aproveitamos do nosso maior domínio e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da terra, que deveria ter subido a ti numa canção, tornou-se um gemido de dor. Que aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós; que elas vivem para si mesmas e para ti, que elas amam a doçura da vida tanto quanto nós e te servem, no seu lugar, melhor do que nós no nosso.

Quando chegar nosso fim e não mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos que dar nosso lugar a outros, que não deixemos coisa alguma destruída pela nossa ambição ou deformada pela nossa ignorância. Mas que passemos adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e alegria, e assim, nossos corpos possam retornar em paz para o ventre da grande mãe que os nutriu e os nossos espíritos possam gozar da vida perfeita em ti.

Amém!

Orações por um mundo melhor, Walter Rauschenbusch.

Imagem: arteterracor.wordpress.com

Culpada

Peço-te perdão

Mas não precisas me perdoar

De fato

Se não queres

Preciso apenas que saibas

Que, embora seja forte,

Sinto-me vil,

Culpada e absurda

E que sem pronunciar

Esse desejo de reparação

Não haverá, para mim,

Vida

Nem mesmo depois

Da morte.

Eugène Delacroix, Hamlet and Ophelia

Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos
a sós
Capa do livro de Leminski, Companhia das Letras; 1ª edição (27 fevereiro 2013).

Loucura

É aterrorizante

(Susto que não cessa)

Pensar nos atalhos da mente

Em loucuras em que cremos

E que nos enlouquecem.

É apavorante

Pensar nos atos

Fabulosamente inconsequentes

Que trazem consequências

Desastrosas.

É arrepiante

Pensar que tudo

Fica por um fio

Quando atuamos

Nossos piores papeis.

Pintura de Alex Kanevsky