De hoje

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft (1938 – 2021)

Inferno

Na mulher nefasta que habita suas fantasias e enredos esboçados, mora uma criança tola, assustada e ávida por algum apreço. Nas linhas tortuosas de suas histórias amargas e das palavras de onde irrompe fel, mora o deleite de quem esqueceu o gozo. Nos fatos arranjados das tramas nas quais a culpa é sempre alheia, habita a desonestidade terapêutica de quem delega a cura à racionalidade turvada de miragens. Nos desajeitados gestos de quem condena o silêncio de um, vive o desejo da palavra congruente, quiçá crédula de toda leviandade. Nos aborrecimentos estampados lá e cá nas letras dos versos, esconde-se o inferno dos outros, as artimanhas de si mesmo e os pecados inumeráveis de todos.

Inferno segundo Hieronymus Bosch (1450-1516).

Parecer

Todas as vezes

Que te vejo olhar para as coisas

E construir explicações sobre as histórias

Leio interpretações inautênticas

Ideias desordenadas

Frases escalafobéticas.

Posso afirmar sem medo

Que para quem aparenta entender de tudo

Você não entendeu nada.

Obra de Susano Correia.

Desacontecimento

Há coisas que têm existência apenas em nossa mente

Nas pueris invencionices que nossa criança interior arquiteta

Sem o filtro da realidade que nos detém e assegura

Sem os laços verdadeiros que nos pertencem

Longe da vida mesma apenas a morte as espera

E quando findas, estremecemos pela infância que habita nossa sensatez

Pelos impulsos impermanentes de outrora

Por ser a aurora tão doce e tão perversa

Por nos colonizarem desejos imperativos e nefastos.

Imagem @filoliteratu

Luzes do dia

As narrativas sobre os fatos atravessam a realidade

São muitas falas e ruídos que (quase) determinam nosso modo de olhar a vida

Há tantos barulhos, buzinas, gritos de ordem

Notícias, televisão, rádio, análises

Certezas, discussões, ânimos exaltados, excesso de fala

Que até os nossos silêncios tornam-se ruidosos

A nossa voz se apaga, tão rouca que parece.

Quando a noite chega sem o conforto da brisa leve depois do dia quente

O corpo exausto pede por qualquer melodia adocicada

Estética, cadenciada, consoante com as vozes do espírito perdidas no caos na realidade

Para quietar os outros e os pensamentos

Para dissipar o inferno e o mormaço

Para retornar a nós os afetos que nos salvam.

Óleo de Marc Chalmé.