Desacontecimento

Há coisas que têm existência apenas em nossa mente

Nas pueris invencionices que nossa criança interior arquiteta

Sem o filtro da realidade que nos detém e assegura

Sem os laços verdadeiros que nos pertencem

Longe da vida mesma apenas a morte as espera

E quando findas, estremecemos pela infância que habita nossa sensatez

Pelos impulsos impermanentes de outrora

Por ser a aurora tão doce e tão perversa

Por nos colonizarem desejos imperativos e nefastos.

Imagem @filoliteratu

Luzes do dia

As narrativas sobre os fatos atravessam a realidade

São muitas falas e ruídos que (quase) determinam nosso modo de olhar a vida

Há tantos barulhos, buzinas, gritos de ordem

Notícias, televisão, rádio, análises

Certezas, discussões, ânimos exaltados, excesso de fala

Que até os nossos silêncios tornam-se ruidosos

A nossa voz se apaga, tão rouca que parece.

Quando a noite chega sem o conforto da brisa leve depois do dia quente

O corpo exausto pede por qualquer melodia adocicada

Estética, cadenciada, consoante com as vozes do espírito perdidas no caos na realidade

Para quietar os outros e os pensamentos

Para dissipar o inferno e o mormaço

Para retornar a nós os afetos que nos salvam.

Óleo de Marc Chalmé.

Travessia

Temos nossos momentos. Estranhos e complicados que somos, por vezes estamos bem e, de repente, ficamos mal. Em seguida, voltamos a ficar bem porque a resiliência é o motor da vida.

Por vezes, penso que viver é seguir equilibrado em uma longa corda. Alguns dias, o esforço é tamanho para realizarmos determinadas travessias que cansamos com os primeiros ventos do dia. Em outros, nossa determinação nos mantém em pé, mesmo debaixo de tempestades.

A questão é que a coisa toda, no caminho, tem que fazer sentido para que não nos atiremos no caudaloso rio que corre embaixo. Buscar significado no que fazemos e fazer porque, apesar da bravura, das batalhas e dos tombos, há uma emoção que dialoga com o que vai dentro de nós, esse é o sentido de estar em pé. Ou de joelhos – ou nos segurando pelas mãos – mas sem cair.

Porque, no caminho, às vezes, a gente cansa. E como cansa! Diminui o passo, ajoelha na corda, grita para o vento, esbraveja para a tempestade. Quer desistir, quer se encostar, quer chorar de medo ou raiva, alguns querem se atirar. Mas, quem não se atira, depois da catarse, levanta e segue.

Toma um café com bolo para lembrar do gosto bom das coisas. Prepara um pão e curte o cheiro quando sai do forno. Cozinha uma massa. Compra um livro e o devora. Esquece dilemas, inventa rezas, cria ritos. Chuta o balde e compra outro cachorro. E mais uma orquídea. Tira o dia para fazer nada e resolve passar roupas assistindo filme, porque são assim nossos momentos, estranhos e complicados que somos.

Poema de Celso Chagas.

Confissão

Uma amiga minha perdeu o padrasto para Covid há alguns dias. Antes da perda, ainda na angústia da internação, escreveu um lindo texto de sua trajetória junto a esse “pai postiço”. No seu escrito, confessa seu ódio inicial por esse homem, o ciúme que sentiu de sua mãe com ele e o percurso de emoções boas e ruins que nutriu desde que o conheceu.

Gosto de textos corajosos. Aprecio quem confessa seus “crimes” e os maus sentimentos que nos tomam durante a vida. Acho essa sinceridade tocante. Acredito que todos temos nossos monstros, nossas dificuldades, um lado sombrio que, para muitos, é inconfessável.

Do amor ao ódio, da calmaria ao desejo de vingança, da delicadeza à brutalidade, tudo está dentro de nós. E, reconheçamos, a depender das circunstâncias, todos somos capazes de tudo.

Confessar os pecados – não aos outros ou aos padres, mas a nós mesmos – nos torna mais confiáveis. Isso porque reconhecemos o que somos e, ao fazer isso, podemos compreender nossas tormentas. Além disso, nos tornamos capazes de separar o joio do trigo. Nos afastamos do mal quando o compreendemos e não quando o negamos.

Gosto de pessoas honestas com a vida. Que admitem erros e culpas. Que confessam verdadeiramente o que são e sentem.

Temor tenho dos que falam apenas de suas pretensas bondades. Do melhor de si. De qualidades para as quais desejam aplausos. Tenho a sensação de que, ao fazer isso, tentam convencer a si mesmos de que não são capazes do que de fato são.

Imagem: @calicevazio

Perhaps love

Canção de John Denver em dueto vocal com Placido Domingo. Uma das mais belas músicas que conheço.

Perhaps love is like a resting place
A shelter from the storm
It exists to give you comfort
It is there to keep you warm
And in those times of trouble
When you are most alone
The memory of love will bring you home

Perhaps love is like a window
Perhaps an open door
It invites you to come closer
It wants to show you more
And even if you lose yourself
And don’t know what to do
The memory of love will see you through

Oh, love to some is like a cloud
To some as strong as steel
For some a way of living
For some a way to feel
And some say love is holding on
And some say letting go
And some say love is everything
And some say they don’t know

Perhaps love is like the ocean
Full of conflict, full of pain
Like a fire when it’s cold outside
Or thunder when it rains
If I should live forever
And all my dreams come true
My memories of love will be of you

And some say love is holding on
And some say letting go
And some say love is everything
And some say they don’t know

Perhaps love is like the ocean
Full of conflict, full of pain
Like a fire when it’s cold outside
Or thunder when it rains
If I should live forever
And all my dreams come true
My memories of love will be of you

Agosto

Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão.

Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar.


O mês de agosto tem muito a ensinar. Porque agosto é mês jardineiro, é dentro dele, berço do inverno, que as sementes dormem. Aguardam seu tempo de brotar. Agosto é guardador da boa-nova, preparador de flores. Agosto é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das mutações.


Mude, diz agosto, em seu recado de sementes. Aceite, diz agosto, com seu jeito frio de vento que levanta poeira e a faz avermelhar o céu. Compartilhe, diz agosto. Agasalhos, sopas quentinhas, cafés com chocolate, abraços mais apertados – eles também aquecem a alma e aninham o corpo. Distribua mais afetos, que inverno é acolhimento, é tempo de preparar setembro. E, de setembro, todos sabemos o que esperar. Esperamos a arrebentação das cores, que com seus mais variados nomes vêm em forma de flores.


Vamos apreciar agosto, recebê-lo com o espanto feliz de quem não desafia ventos. Que ele desarrume e espalhe suas folhas e levante suas poeiras.
Aceite as esperas, mas coloque floreiras na janela.


Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!

Miryan Lucy de Rezende