Piripaque

tem horas em que mesmo perseverando, mantendo a firmeza, aguentando todas as pressões, deixamos de suportar. sucumbimos, passamos mal, temos um momento ruim. a sensação de enjoo, a reviravolta dos sentidos, o suor escorrendo pelas costas. deitei-me no chão do escritório e ergui as pernas na cadeira. fiquei ali sozinha, sala escura, por longos minutos, interminável tempo de pavor pelo incontrolável. segui com aquela sensação o resto do dia: no chão, vendo a energia se esvaindo, o corpo esquecendo o rumo, a vida perdendo sentido. na alma, ficaram incrustadas a longa espera, a chegada ao limite, o fracasso do que importa, o desejo de jogar a toalha. onde se reencontra a leveza das coisas?

Sem perdão

as culpas se entrelaçaram: minhas, tuas, nossas. desculpar-se não desfaz os malfeitos. o nevoeiro das decisões maltrapilhas não se dissipa na falha da claridade. até a lua se acovarda frente ao vendaval. o meu eu sombrio não pode mais se autoproclamar real. a restinga da narrativa construída em cercania de dor geme sua descoberta. o caminho do inferno é o mesmo dos desejos insensatos.

Noite

as golfadas de frescor da noite trazem em seus sonidos sonhos desvairados que espasmam pernas e chacoalham o sossego. sonhos que invadem pensamentos, sonhos aéreos, de tobogãs, elevadores, subterrâneos e recintos entreabertos. que flertam com o irrefletido dos dias. que trazem chaves para abrir as portas encarceradas da nossa criança de outrora. que rendem prolongadas análises no divã. que nos ensejam acordar para realidades incógnitas. sonhos que nos despertam para noites ensolaradas e que perpetuam o cinza dos dias em reflexões kafkianas.

Calendário

os dias seguem com os assombros do agora. somos tomados pelo tempo em dimensões covardes. deixamos de viver a singularidade dos dias com os outros e estamos mergulhados na infinidade de nós mesmos. vemos, pela graça dos recursos tecnológicos, os bebês de ontem andando, a abundância dos cabelos das meninas em longas tranças, as calças curtas das crianças, o afinamento dos traços que vem com o crescimento, a incontinência dos gestos que solicitam presença. o tempo virou inimigo. não chega, não passa. parece desacatar a resolução das coisas. contamos dias infinitos de dores da alma dilacerantes. ansiamos o futuro pois o presente decidiu debochar de nós. estamos saudosos de um passado recente. fomos jogados no caos da vida. seguimos buscando o sentido do que temos enquanto a vida não nos regressa por ora.

Prato

a beleza do restaurante e o requinte do cardápio trazem certa pompa ao almoço de domingo. pedimos água para amenizar a quentura do dia e um clericot para entremear o encontro amoroso. entre tantos itens do menu – não, não tantos – a escolha declara as ranhuras da alma: a massa caseira que corteja as lembranças de menina. a fome, de amparo. o desejo, de resignificância. a sensação, de abrandamento de dores e reverência ao tempo. gastronomia da alma.

Manicômio

os dias seguem com imbecilidades chegando pelas frestas das janelas. sinto-me alienista a ser internada em hospício de uma pessoa só. brigo com coisas tolas, enraiveço pelo desconhecido, entôo canções antigas que me lembro não sei como, nem por quê. recomeço semanalmente dietas inúteis e inventei de colocar glutamina no suco de laranja.

leio. releio. escrevo lembretes nos rodapés dos livros. quero fazer power points para usar não sei quando. esqueço o remédio do meio-dia, assim como de criar lembretes para não esquecê-lo. me irrito diariamente com a empregada. faço ovos mexidos para os cachorros. cismei de correr no parque às seis da manhã. cansei de programar a vida.

Juiz

o telefone tocou e fez ressoar as palavras: ele deveria recolher sua trouxa e se retirar. a batalha não encerrava a guerra, mas o novo capítulo permitiu um sono sem cortes. lembrei-me, enojada, do jeito vulgar de quem tenciona riqueza, dos argumentos vis, das relações descerebradas e das palavras quase obscenas: tudo para mim é negócio.

a guerra não se estendeu por longo tempo: aquele prenúncio definiu quem deveria ganhar ou perder. ainda assim, seguiram-se longos dias de barulhos mentais e um susto constante pela possibilidade do encontro. os ruídos calaram-se e o embate não houve. uma dose seca de ódio ainda foi companhia por dias intermináveis. cantei vitória bebendo vinho barato e contando as moedas do cofre.

Matinal

as curvas da manhã começaram a se mostrar em meio ao sexo que embalou o bom dia. deixamos os lençóis quentes e fomos caminhar passos de outono. o céu nos convidava ao amanhecer enquanto os olhos, turvos do prazer recente, desejavam ainda perdurar certa mornidão.

o café precisou ser forte. e muito. os olhos arderam o desejo prematuro durante todo o dia. o corpo esmolou descanso. ao fim do dia, os lençóis já frios envolveram o cansaço de toda a estação.

Falso poeta

Cavei cova funda
e enterrei teus contos
escritos na melodia cafona
dos sentimentos rasos
e desejo$ torpes.
Teus exageros (mal) disfarçados
te fizeram construir
sonhos mascarados
em trouxas de búzios e patuás.
Teus falsos protetores
fizeram-me abraçar
o rosário de aves-marias
(ladainha de contas decimais)
guardado no baú das recordações insuspeitas.