Rota

quis encontrar uma estrela em teus olhos

dançar, inda menina, nos teus palcos

ser-te atriz principal de meus melhores papeis

enquanto rompia as correntes de um vazio sem nome

e buscava alguma crença em qualquer merecimento.

esqueci-me menina nas minhas fantasias inseguras

nos desejos que busquei atrás das portas

ou entre as frestas nas janelas

quis encontrar sentido em mistérios, contos e horóscopos

e deixei de cultivar a antiga mania de temer o que não conhecia.

que dor profunda em se crescer!

fui extirpar pedaços, carcaças, lágrimas secas

mergulhei fundo e toquei o lodo que esconde nossos pés quando afundamos

larguei as roupas velhas, úmidas, floridas

deixei os cadernos, as cartas, os adereços em cores

ao lado do jazigo onde enterrei minhas antigas versões acabadas

vez ou outra procuro estrelas, agora no céu, onde repouso meus olhos

enquanto algumas lembranças percorrem meus lutos

para eu me ter finalmente presente em mim mesma.

Obra de George Clausen, 1892.

Jenga

sempre nos é permitido

repensar o pensado

rever um argumento

escolher outro caminho

reparar uma história.

como um jogo nada infantil

a vida sempre pode ser desfeita

e refeita

com um novo arranjo

de novo

e de novo

outra vez

e mais uma.

Imagem: web.

Giratório

me perdi entre as vírgulas do texto

sem palavras

em busca do sentido metafórico

das estrofes entre

parênteses

querendo algum indício de sua

caligrafia perfeita

para guardar com os cartões postais

dos lugares

onde não estivemos.

Obra de Edward Hopper.